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May 3, 2020

BairroDosActores.txt


A casa do Pedro situava-se numa rua estreita nos subúrbios de uma grande cidade, era pequena, discreta, moderna e bem-parecida; Compunha-se de dois quartos: um
onde habitava e outro onde hóspedes regularmente repousavam.
O quarto de hóspedes é pequeno; encostada a uma das suas paredes
encontra-se uma cama de casal recortada de madeira de cerejeira
antiga, decorada com um bonito colchão de padrão aflorado do
mesmo tom encarnado e sereno; na parede oposta, um grande móvel
enche os olhos, assim como o único quadro presente: uma cópia de
uma pintura assinando Salvador Dalli, inserido numa moldura em
talha de ouro; uma discreta e sóbria secretária onde repousam um
ilustre candeeiro e um livro velho que completam o cenário.
Da janela do quarto podiam-se observar os grandes edíficios
adjacentes da cidade, dispostos ordenadamente e intercalando a luz
do sol, e à noite, sombreando o brilho branco da lua.
Quando, num dia colorido de céu aberto, Pedro chegou do trabalho,
decidiu contactar o seu amigo João para fazer uma qualquer
actividade de forma a poder aproveitar o bom tempo que raramente
se fazia sentir onde vivia, e também porque não gostava de passar o
seu tempo fechado em casa.
João era um rapaz de estatura média, o seu cabelo loiro e liso
encaixava na sua face de uma forma graciosa, combinando com os
seus olhos castanho-claros, tornando-o elegante e atraente; a
personalidade e pose de João correspondiam aos seus atributos
físicos: altivo, inteligente e arrogante, permitiram-lhe enriquecer e ter
o vício de fumar, subindo e descendo na vida, dependendo da
perspectiva.
Ao contactar João, este não atendeu o telefone e portanto Pedro
decidiu ficar em casa e ver na televisão a sua série preferida “A saga
da rua 13″ em que um assassino em série assassina uma série de
pessoas que moram na sua rua.
É de noite, o Pedro não consegue dormir, a sua mente vagueia pelo
infinito e aí se perde; abre os olhos, veste umas calças e desce as escadas em direcção ao
jardim mais próximo, deita-se sobre a relva húmida, olha o céu e de
olhos abertos a sua mente viaja pelo Universo, aí se encontra, nas
estrelas e no brilho branco da lua.

2007, Tomar